Robert Panda – “O Estúpido” (2025)

Robert Panda (Lisboa, n. 1982) é um artista português que iniciou o seu percurso no submundo do graffiti, a pintar nos subúrbios de Lisboa. O seu projeto de instalação escultórica de rua intitulado “Os Estúpidos” tem por base a colocação de figuras antropomórficas estilizadas e amigáveis, produzidas com materiais como papel e fita adesiva, fibra de vidro ou cimento, em vários locais de modo a surpreender e a interagir com os transeuntes. O seu trabalho instigante tem sido igualmente apresentado em vários festivais e eventos artísticos, em exposições em Portugal e no estrangeiro, consolidando a sua reputação na arte contemporânea.

A Persistência de um Símbolo

O percurso curatorial do Monte da Fonte Santa é pautado pela descoberta e pela concretização de afinidades artísticas. Desde a fase inicial do projeto, a obra de Robert Panda despertava particular admiração, e a presença de um dos seus icónicos “Estúpidos” no Monte era um desejo antigo. Acreditava-se que a sua abordagem filosófica e a estética instigante fariam todo o sentido no contexto do Alentejo, mas na altura, essa concretização não tinha sido possível.

A essência do projeto “Os Estúpidos” reside numa profunda, mas divertida, reflexão sobre a natureza humana. O próprio artista explica que a estupidez é uma característica fundamental da nossa condição, presente em todos nós, sem exceção. O projeto nasceu em 2011, num contexto de profunda crise económica em Portugal, como um comentário à “estupidez dos políticos, burocratas, agentes financeiros e outros que tais”. Contudo, ao refletir sobre a natureza deste comentário, Robert Panda apercebeu-se de que a responsabilidade era partilhada: “Todos nós éramos responsáveis. Todos nós éramos igualmente estúpidos.” Esta epifania levou a uma alteração do objetivo do projeto, passando a sublinhar esta característica inerente à humanidade, com a criação de esculturas antropomórficas deformadas, mas amigáveis.

A primeira instalação de um “Estúpido” ocorreu nos Açores, num aterro sanitário, como um comentário crítico ao consumismo e ao desperdício. O objetivo inicial era criar algo incongruente e contrastante, mas o que surpreendeu o artista foi a atração imediata e instintiva das pessoas à volta da peça. Esta interação imprevista transformou a instalação num ato performativo, onde o “Estúpido” atua como um catalisador para a interação humana. Conforme Robert Panda observa, “Aquilo que começou como uma busca por uma boa photo op acabou por evoluir para uma performance viva sobre a nossa natureza estupidez humana, que eu gosto de observar e registar. Ser-se estúpido, é estúpido. Mas também pode ser interessante. E divertido.”

A filosofia do projeto reside na ideia de interação e na observação da reação humana. O artista nota como as pessoas, especialmente as crianças, se sentem atraídas por estas figuras pacíficas, libertando a sua criança interior. “O Estúpido é sempre o Estúpido. Uma figura tipo camaleão que assume diferentes cores e posturas de acordo com o local e o seu estado de espírito. Cada cor pode expressar um estado emocional diferente.”

O desejo de integrar esta obra de significado tão multifacetado no Monte da Fonte Santa, portanto, vinha de longe. A oportunidade surgiu de forma algo fortuita. O verdadeiro catalisador foi um post de Instagram do próprio artista, que mostrava a construção de um “Estúpido” de grande dimensão no atelier do artista no Alentejo. Uma mensagem direta, expressando o quão bem a obra “ficaria no Monte da Fonte Santa”, obteve uma resposta surpreendente: o artista concordava.

A partir desse momento, iniciou-se uma troca de mensagens que culminou numa visita ao seu atelier em Santiago do Escoural, no Alentejo. Este encontro permitiu aprofundar a visão e as possibilidades para a obra. Seguiu-se um processo muito interessante de decisão da cor. A escolha final recaiu sobre um vibrante cor de laranja, uma tonalidade que prometia um diálogo impactante com o ambiente natural do Monte.

A chegada do “Estúpido” ao Monte da Fonte Santa foi um evento marcante, com a escultura a viajar de carrinha, visível contra o céu azul do Alentejo.

O “Estúpido” foi instalado numa área aberta do Monte da Fonte Santa, num pequeno planalto de terra batida e gravilha, de onde a figura, sentada, pode contemplar a vasta paisagem alentejana ao seu redor. A sua localização permite que seja visível de múltiplos pontos e que interaja diretamente com o céu e a linha do horizonte. A cor de laranja, vibrante e inesperada na paisagem, acentua a sua presença, fazendo-o destacar-se como um ponto de interrogação e de contemplação.

A instalação da obra foi celebrada com o artista e a comunidade, num momento que reforça a filosofia de interação inerente ao projeto “Os Estúpidos”.
A figura do “Estúpido”, com a sua pose de introspeção e a sua cor vibrante, tornou-se um catalisador para a interação humana. Conforme previsto pelo artista, adultos e crianças sentem-se atraídos por esta presença amigável e instigante, que parece convidar à reflexão e à libertação da criança interior.

À noite, e ao crepúsculo, a obra adquire novas dimensões. Contra o céu estrelado do Alentejo ou os tons quentes do pôr do sol, a silhueta do “Estúpido” torna-se ainda mais icónica, convidando a uma meditação sobre a nossa condição no vasto universo. O rasto de um avião no céu noturno, que por vezes cruza a sua “visão”, adiciona uma camada de modernidade e conexão global a esta figura intemporal.

A presença do “Estúpido” de Robert Panda no Monte da Fonte Santa é, assim, um testemunho da persistência de uma visão curatorial e da capacidade da arte para nos fazer parar, refletir e sorrir. É um lembrete colorido de que, na nossa partilhada estupidez, reside também a nossa humanidade, a nossa capacidade de sonhar e de nos maravilharmos com o mundo ao nosso redor.