
Sérgio Odeith (Damaia, 1976), conhecido no mundo da arte urbana como Odeith, é um artista português que se destacou globalmente pela sua inovadora linguagem visual tridimensional. Iniciou a sua jornada no graffiti na década de 1990, e foi no início dos anos 2000 que desenvolveu a sua assinatura: a anamorfose. Esta técnica, que cria ilusões de ótica e profundidade a partir de superfícies bidimensionais, tornou-o uma referência incontornável no panorama internacional. As suas obras, que frequentemente transformam cantos, paredes e estruturas em ilusões de objetos, animais ou personagens que parecem emergir do espaço, são um testemunho da sua mestria no uso do spray e na compreensão da perspetiva. Odeith tem criado murais e exposto em diversas cidades e países por todo o mundo, consolidando a sua reputação como um mestre da ilusão e um inovador na arte urbana contemporânea. A sua obra tem sido amplamente reconhecida e divulgada em publicações especializadas e plataformas internacionais de arte.

Anamorfose e Ilusão: A Poesia Tridimensional do Alentejo
A contínua expansão do projeto curatorial no Monte da Fonte Santa exigia a integração de um artista que desafiasse as perceções e adicionasse uma nova camada de experiência visual. A escolha de Odeith (Sérgio Odeith), um dos nomes mais proeminentes da street art portuguesa e internacional, era uma ambição fundamentada na admiração pela sua obra anamórfica. A sua capacidade de transformar superfícies bidimensionais em ilusões tridimensionais, consolidava-o como um artista cujo trabalho de exceção deveria estar presente no Monte. A sua participação representaria não só um reforço da qualidade artística do projeto, mas também uma nova exploração da relação entre arte e espaço.
A convicção na relevância da sua obra levou a um esforço de persuasão para o trazer ao Monte da Fonte Santa. Após um período de diálogo e apresentação da visão do projeto, Odeith acedeu ao convite, confirmando o apelo crescente do Monte como plataforma artística. O briefing curatorial foi conciso: criar uma obra que se integrasse no contexto cultural e natural do Alentejo, mantendo a sua linguagem artística distintiva.
A localização eleita para esta intervenção foi uma parede adjacente ao portão de entrada do Monte. Esta escolha foi estratégica, garantindo que os visitantes, ao percorrerem o caminho em direção às restantes obras, tivessem uma das primeiras e mais impactantes experiências visuais do percurso.
O conceito desenvolvido por Odeith revelou a sua sensibilidade para com o pedido. A proposta era um desenho bidimensional anamórfico que, de um ponto de vista específico, criaria a ilusão de um objeto tridimensional. A composição incluía uma tigela de loiça alentejana, um elemento de forte identidade cultural, e um pássaro. A ideia inicial de um colibri evoluiu, durante o processo de criação, para uma andorinha, símbolo nacional e figura icónica do Alentejo, evocando a liberdade, o regresso e a essência rural. A imagem final seria a de uma andorinha a interagir com a tigela, onde repousava uma colher, criando uma cena como “quase um sonho tridimensional”.
A instalação, ocorrida em 2019, iniciou-se com o esboço meticuloso das linhas base na superfície da parede.
Utilizando o spray com mestria, Odeith começou a criar os volumes e as sombras que dariam vida à ilusão. As superfícies planas da parede foram transformadas através de gradientes de cor e perspetivas distorcidas, que só se alinham num único ponto de observação.
Durante este processo, a andorinha foi ganhando as suas cores características – o vermelho na face, o azul e preto no corpo – consolidando a sua identidade alentejana na obra.
A obra final, sem título oficial, é um testemunho da genialidade de Odeith. De um ponto de vista específico, a ilusão é perfeita: uma andorinha parece voar de forma lúdica sobre uma tigela de loiça alentejana, onde uma colher repousa, num cenário que desafia a realidade e convida à contemplação. Esta “Andorinha na Tigela” é um ponto de convergência entre a arte urbana, a herança cultural e a magia da perceção.
Contudo, a beleza da anamorfose reside também na sua dependência do ponto de vista. Ao afastar-se da perspetiva ideal, a ilusão “desfaz-se”, revelando as distorções inerentes à pintura bidimensional. Esta característica convida o público a interagir fisicamente com a obra, procurando o ponto exato de onde a magia acontece.
A assinatura “ODEITH ’19”, discretamente colocada na faixa azul da parede, atesta a autoria e o ano da intervenção. A obra de Odeith, no Monte da Fonte Santa, não só enriquece a coleção de arte pública, como oferece uma experiência imersiva e interativa, celebrando a cultura alentejana através de uma linguagem artística globalmente reconhecida pela sua capacidade de iludir e maravilhar. É, de facto, um “sonho tridimensional” que se ergue da parede, convidando cada visitante a descobrir a magia por si próprio.
