Isaac Cordal – “Follow The Leaders” (2026)

Isaac Cordal (Pontevedra, n. 1974) trabalha com escultura, instalações e fotografia em espaços públicos e expositivos. O seu trabalho tem sido marcado pelos lugares onde viveu, como Londres e Bruxelas. Atualmente vive em Bilbao. Uma das suas obras mais conhecidas é o projeto nómada Cement Eclipses, que consiste em intervenções urbanas efémeras e permanentes construídas com pequenas esculturas figurativas, através das quais reflete sobre a sociedade contemporânea. Desde o início, Cordal trabalha com o mesmo personagem estereotipado: um homem de meia-idade, careca, uniformizado com um fato cinzento. O espaço público desempenha um papel central no seu trabalho, uma vez que o local escolhido constitui uma parte fundamental da obra. São espaços semânticos que confundem a escala, lugares onde percebemos a passagem do tempo e a nossa decadência, espaços que nos falam da nossa própria imperfeição. Cordal utiliza o humor e a ironia de forma contida e ambígua, nos limites do drama, naquele ponto em que já não sabemos se devemos rir ou chorar. Cement Eclipses começou como um projeto nómada no espaço público em 2006 e continua em desenvolvimento. Até hoje realizou intervenções em cidades como Berlim, Londres, Bogotá, Bruxelas, Zagreb, Viena, Taipei, Milão, Nova Iorque, Amesterdão, Nantes, San José, Hanói, entre outras.

A Escala da Consciência

Há artistas que ampliam o mundo para que o possamos ver melhor.
Isaac Cordal faz o contrário: redu-lo.

Nas suas esculturas minúsculas, quase imperceptíveis à primeira vista, o drama humano surge condensado numa escala que obriga o observador a aproximar-se, a baixar o olhar, a procurar. É um gesto quase simbólico: para compreender a condição humana é preciso abandonar a posição dominante e aproximar-se do detalhe.

Foi com essa consciência que a presença de Isaac Cordal no Monte da Fonte Santa começou a ganhar forma.

Isaac Cordal construiu ao longo das últimas duas décadas um dos universos mais singulares da arte contemporânea europeia. As suas pequenas figuras humanas, geralmente vestidas com fatos formais e colocadas em ambientes urbanos degradados, transformam as cidades em palcos silenciosos de reflexão social.

Estas personagens — executivos, burocratas, figuras aparentemente indistinguíveis — surgem frequentemente em situações absurdas ou inquietantes: afundadas na água, encurraladas em estruturas arquitetónicas, ou reunidas em assembleias que parecem tão inúteis quanto inevitáveis.

A série “Follow the Leaders” talvez seja uma das expressões mais incisivas desta visão. Nela, Cordal representa grupos de homens de fato — líderes, gestores, políticos ou figuras de poder — alinhados ou reunidos como se participassem num ritual coletivo cujo propósito permanece ambíguo.

À primeira vista, a cena pode parecer banal.
Mas, ao aproximarmo-nos, a banalidade revela-se inquietante.

Trazer Isaac Cordal para o Monte da Fonte Santa implicava um desafio conceptual diferente das intervenções anteriores. Ao contrário de murais monumentais ou esculturas de grande escala, o trabalho de Cordal exige intimidade. As suas figuras não se impõem ao espaço; infiltram-se nele.

A proposta que começou a tomar forma foi precisamente essa: criar uma instalação da série Follow the Leaders composta por esculturas em resina acrílica, material que o artista utiliza pela sua resistência e capacidade de preservar o detalhe minucioso das figuras.

A escolha do local dentro do Monte tornou-se um momento crucial do processo. As figuras de Cordal vivem de tensão com o espaço que ocupam. Num ambiente rural aberto como o Alentejo, essa tensão poderia ganhar novos significados.

Se nas cidades as suas personagens representam a alienação do poder burocrático, no Monte da Fonte Santa elas seriam confrontadas com algo muito mais vasto: a paisagem.

O contraste é imediato.

Pequenas figuras humanas, vestidas com a formalidade do poder moderno, colocadas num território que se estende em silêncio até ao horizonte.
Homens que parecem discutir decisões grandiosas diante de uma natureza completamente indiferente à sua existência.

A série Follow the Leaders ganha assim uma nova camada de leitura. No contexto urbano, a crítica dirige-se às estruturas de poder contemporâneas. No Monte da Fonte Santa, a mesma cena transforma-se numa meditação sobre a escala da ambição humana perante a paisagem e o tempo.

As esculturas parecem quase frágeis quando colocadas no ambiente vasto do Alentejo. E, no entanto, é precisamente essa fragilidade que amplifica a sua força simbólica.

Quem se aproxima percebe rapidamente que aquelas figuras não representam apenas líderes políticos ou económicos. Representam todos nós — a humanidade organizada em torno de decisões que muitas vezes ignoram o próprio mundo que as sustenta.

A utilização de um compósito de resina acrílica confere às esculturas uma presença simultaneamente delicada e durável. O material permite captar as dobras do vestuário, as expressões subtis dos rostos e a postura corporal de cada figura, elementos fundamentais no trabalho de Cordal.

Cada personagem possui uma individualidade quase narrativa.
Algumas parecem refletir.
Outras observam o horizonte.
Outras parecem simplesmente esperar.

No Monte da Fonte Santa, essa espera ganha uma dimensão quase existencial.

O tempo rural — marcado pelas estações, pelas colheitas, pelo movimento lento da paisagem — contrasta profundamente com o tempo acelerado que estas figuras parecem representar. A obra transforma-se assim numa espécie de suspensão: um grupo de líderes imóveis perante uma natureza que continuará a existir muito depois das suas decisões.

Talvez a característica mais poderosa do trabalho de Isaac Cordal seja a forma como obriga o observador a mudar de comportamento.
Para encontrar as esculturas é necessário procurá-las.
Para compreendê-las é necessário aproximar-se.

No Monte da Fonte Santa, esta dinâmica ganha uma nova dimensão. O visitante, habituado à monumentalidade da paisagem, é subitamente convidado a olhar para algo quase invisível.

É nesse gesto — baixar o olhar, focar o detalhe, descobrir o pequeno teatro humano escondido na paisagem — que a obra cumpre o seu propósito.

No final, a instalação de Isaac Cordal não compete com o território.
Ela introduz uma pergunta.

Num lugar onde o horizonte se estende livremente, onde o tempo parece correr de forma diferente, estas pequenas figuras recordam-nos da estranha condição da nossa civilização: uma espécie que constrói hierarquias complexas, organiza conferências, planeia o futuro — mas permanece, em última análise, pequena perante o mundo que habita.

As esculturas de Follow the Leaders no Monte da Fonte Santa tornam visível essa ironia.

E talvez seja essa a sua maior força:
numa paisagem que convida à contemplação, Isaac Cordal coloca-nos diante de um espelho reduzido da humanidade — minúsculo, silencioso, e profundamente revelador.