
Fulvio Capurso (Turim, 1980) é um arquiteto, artista e ilustrador italiano com uma vasta experiência internacional. Em 2008, cofundou o Rootstudio em Oaxaca, México, onde explorou a interseção entre arquitetura e design. O seu trabalho como ilustrador abrange desde banda desenhada a livros infantis, revelando uma sensibilidade narrativa única. Tendo lecionado desenho e arte urbana no México e no Uruguai, Capurso integra o coletivo Casa Wang e o projeto Booksonwall. Residente em Lisboa desde 2019, o seu foco artístico tem evoluído para a escultura em materiais como o aço corten, a madeira e a pedra, desenvolvendo projetos site-specific que fundem a experiência espacial com a expressão poética, como o projeto StoryTellers (Benfica) ou a escultura comemorativa para a Universidade NOVA de Lisboa.

A Memória Familiar Suspensa no Tempo
A coleção do Monte da Fonte Santa, assente em pilares de memória e reflexão, encontrou no final de 2025 uma forma sublime de dialogar com a linhagem familiar e a passagem das gerações. A escolha de Fulvio Capurso — arquiteto e ilustrador que transita entre a precisão técnica e o onírico — permitiu a criação de uma obra que é, simultaneamente, um tributo à infância e um marco poético na paisagem alentejana.
O coração de Once Upon a Tree reside numa camada de intimidade profunda. As figuras centrais da instalação não foram apenas idealizadas; foram transpostas de fotografias antigas das filhas do curador. Uma menina que trepa com determinação pelos ramos e outra que se embala num baloiço eterno. Ao utilizar estas referências, Capurso não criou apenas esculturas; ele operou uma transmutação da memória privada em património artístico. Imortalizar a infância das filhas no Monte é um gesto que funde o crescimento humano com a resiliência da natureza.
Instalada numa azinheira secular, a obra utiliza o aço corten como elemento de ligação. A pátina de ferrugem do metal mimetiza a textura da cortiça e os tons orgânicos da árvore, fazendo com que as silhuetas pareçam emergir da própria biologia do local. Entre a folhagem, surgem também criaturas fantásticas — seres alados e animais estilizados — que transformam a copa da árvore num livro de histórias aberto ao céu, onde o tempo parece ter parado.
Ao caminhar sob a copa e olhar para o alto, o visitante é convidado a uma descoberta lúdica. As figuras desafiam a gravidade e o esquecimento, lembrando-nos que, no Monte da Fonte Santa, as raízes não estão apenas no solo, mas também nas histórias que escolhemos elevar e preservar
